sexta-feira, 3 de julho de 2015

A BANALIZAÇÃO DO EU TE AMO

No sacolejar do ônibus Caio é surpreendido pela luminosidade da tela do celular da poltrona ao lado. Disfarçadamente ele repara na conversa: – Alô?! Oi, tu está no supermercado? Hum, então não vou descer na rodoviária. Porque dessa voz? Alguma coisa errada? Sei, outra sexta-feira qualquer. Daqui a pouco já estou chegando e conversamos melhor, certo?! Beijo e fica bem. Então disparou, ainda que sem saber por quê: – Com licença, senhor, você falava com sua esposa? – Sim, por quê? – E você ainda a ama? – Claro, desde o dia em que nos conhecemos há doze anos, e contando. – E porque não disse “eu te amo” no fim da ligação ao invés dum “fica bem”? – Pra não banalizar. – Banalizar? – Dizer a todo instante que ama sua companheira acaba desgastando o sentido da palavra. Vulgarizando o amor. É como se houvesse um número limitado para empregar o termo. Ah, e não há substituição. Peça única. Coisa rara que não encontramos em qualquer esquina. – Entendo, mas se você limita o uso da palavra, como ela sabe que você a ama? – Com ações. – Parece meio clichê. – Se clichê fosse ruim, não faria tanto sucesso. – É um ponto. – Entenda: o “eu te amo” não pode ser usado fora de contexto, é preciso sagacidade para compreender o momento e então dispara-lo, porque sim!, é um disparo, pois sempre causa espanto a quem é endereçado o “eu te amo”. – E deve causar espanto? – Ela deve ser surpreendida. Caso contrario, qual o significado do “eu te amo” se já não causa reação alguma? – Bem, perde o sentido. – Bingo! E isso é banalizar o “eu te amo”. – Hum. Interessante. – O segredo é: use com moderação. – Igual bebida alcoólica? – Semelhante. O amor deve ser dosado. Mutuo. Compreendido. Mesmo assim você sempre corre o risco de ficar com uma ressaca danada. – E o saldo é positivo? Vocês são felizes? – É dogma particular, cada um tem sua fórmula e receita que dá certo – ou não. A minha é esta. Não quer dizer que funcione. Por ora, e espero que até o último de meus dias eu siga amando ela. Quando se deram conta já estavam no supermercado, parada na qual o sujeito prometera a sua amada que lhe encontraria. Rapidamente se despediram, com um “fica bem” e o indivíduo desceu. Ficou cuidando o encontro de ambos: um abraço caloroso. E, através de leitura labial, reparou que o homem com quem conversara “disparou” para sua amada um sorridente “eu te amo”. A moça retribuiu com olhos brilhantes. Concordou que o momento era oportuno.   _______ Fonte: Escrito por Eduardo Rocha

Nenhum comentário:

Postar um comentário